segunda-feira, 26 de maio de 2008

Doçura e sabedoria



"Milho, planta primária da lavoura.


Fartura generosa e despreocupada dos paióis.


Canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece."



Esses versos de Cora Coralina (1889 - 1985) na voz do radialista Edson Geraldo já pertencem às tradições do mês de aniversário da cidade. Vale a pena conhecermos a Oração do Milho na íntegra:



Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos
e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso,
nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e, se me ajudardes, Senhor,
mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo,
de mim não se faz o pão alvo universal.
O justo não me consagrou Pão de Vida
nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial
dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e ascendência pobre,
alimento de rústicos e animais de jugo.


Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
coroados de rosas e de espigas,
e os hebreus iam em longas caravanas
buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,
quando Rute respigava cantando nas searas de Booz
e Jesus abençoava os trigais maduros,
eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.

Fui o angu pesado e constante do escravo
na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proprietário, a polenta
do imigrante e a amiga dos que começam a vida
em terra estranha.
Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio,
nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa
e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos
na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a vós,
Senhor,
que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho!

2 comentários:

Lívio disse...

Manoel, talvez por eu ter trabalhado por muito tempo no rádio local, a tradicional chamada não mais chamava minha atenção. Sempre gostei dos versos, mas perderam o encanto devido à repetição.

Eu não conhecia o texto na íntegra. Ótimo, você tê-lo postado. Gostei da idéia de o milho ser a "voz" do poema, o eu-lírico. E um eu-lírico modesto.

Para os Maias, o milho era um alimento sagrado. Segundo crença desse povo, o homem foi criado da mistura entre sangue e milho.

Manoel Almeida disse...

Lívio, a Oração do Milho é parte de um poema ainda mais extenso. Edson Geraldo foi bastante feliz na escolha dos trechos, concorda?

Não vejo na repetição um problema, talvez pelo fato de eu ouvir rádio muito pouco.